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Título II: Ventos uivantes: o colapso da absurda piada humana; Nietzsche e a face do abismo

 

Narrador: (…) O vendaval ribomba implacavelmente em torno da casa.

– Por que você não foi à cidade? (O cocheiro)
– O vento está acabando com ela.
– Como assim?
– Vai virar ruína.
– Por que iria arruinar-se?
– Porque tudo está em ruínas. Tudo degradou-se, mas eu diria que se arruinou e se degradou a esse ponto por causa deles.
           Porque esse tipo de cataclisma não viria sem uma inocente ajuda humana, pelo contrário, é sobre o próprio julgamento do homem, seu próprio julgamento sobre si mesmo no qual certamente Deus está envolvido, ou atrevo-me a dizer, tem um papel ativo.
E seja qual for a sua parte, é a criação mais horrível que se possa imaginar.
             Porque, veja você, o mundo degradou-se; então não interessa o que eu digo, pois tudo degradou-se assim que foi adquirido.
E como eles adquirem tudo de maneira encoberta, furtiva, degradaram tudo.
Porque qualquer coisa em que eles põe as mãos, e eles tocam em tudo, eles degradam. Assim foi até a vitória final, até o triunfante final. Adquirir, degradar, degradar, adquirir.
              Posto de maneira diferente se você preferir, por as mãos, degradar e finalmente adquirir, ou por as mãos, adquirir e finalmente degradar. Tem sido assim há séculos… E assim por diante.
Isso, e somente isso, algumas vezes dissimuladamente, outras arrogantemente, as vezes delicadamente, as vezes violentamente, mas sempre, sempre, sempre.
              Todavia, de uma única maneira, como um ataque de ratos em uma emboscada, porque para essa vitória perfeita também foi essencial a colaboração do outro lado. Ou seja, tudo o que é excelente, grandioso e nobre, não deve participar em nenhum tipo de embate. Não deveria haver luta de espécie alguma, somente o rápido desaparecimento de um dos lados, o desaparecimento da excelência, da grandiosidade, da nobreza, de forma que agora esses vencedores que atacam de emboscada regem a Terra, e não existe canto algum onde alguém possa esconder-se deles, pois tudo em que eles consigam por as mãos é deles; até mesmo coisas que achamos que eles não alcançam, e eles alcançam, também é deles.
              Porque o céu já é deles e até os nossos sonhos. Deles é o momento, a natureza, o silêncio infinito, até mesmo a imortalidade é deles. Tudo, tudo está perdido para sempre! E essa multidão de nobres, grandes e excelentes simplesmente não interferiram, se assim posso colocar; eles pararam neste ponto, e tiveram que entender, e tiveram que aceitar que não há Deus, nem Deuses. E o excelente, o grande e o nobre tinham que entender e aceitar isso desde o princípio, é óbvio que eles foram incapazes de entender isso. Eles acreditaram e aceitaram, mas não entenderam, ficaram somente perplexos, mas não resignados, até que algo – um brilho do espírito (uma centelha do cérebro?) – finalmente os iluminasse.
               E de repente eles perceberam que não há Deus nem Deuses e também que não há nem bons e nem maus… Então eles viram e entenderam que se assim fosse eles também não existiam! Acho que esse possa ter sido o momento em que podemos dizer que eles foram extintos, apagados. Extintos e apagados como a fogueira deixada para se apagar no campo.
              Um o perdedor constante, o outro sempre vencedor. Derrota, vitória, derrota, vitória, e um dia, por aqui mesmo, eu dei-me conta e percebi que estava enganado, eu estava realmente enganado quando pensei que nunca houvera e nem poderia haver qualquer tipo de mudança no futuro. Porque, acredite-me, eu sei agora que essas mudanças já ocorreram.
(Bernhard, uma sombra nietzscheniana, em posse de uma aguardente)
– Deixe disso. Isso é tolice !
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Uma anti-Bíblia
Narrador: Lá fora a tormenta continua a castigar, o vento ainda varre a terra implacavelmente na mesma direção, mas agora não há nada em seu caminho para obstruí-lo, somente uma grande nuvem de poeira levada pelo vendaval avança impiedosamente, poeira seca e devastador nada que o vento toca em sua frente enquanto sopra descontrolado sobre a terra árida.
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Aquele que já entendeu que apenas na loucura está a conclusão do homem, é levado a fazer uma escolha clara não entre loucura e razão, mas entre a mentira de ”um pesadelo de roncos justificáveis” e a vontade de domínio e vitória ( outubro de 1986), Bataille.
“Em Turim, no dia 3 de Janeiro de 1889, Friedrich Nietzsche deixa a residência no número 6 da Via Carlo Alberto, talvez para dar um passeio, talvez para ir até o correio para recolher a sua correspondência, não longe dele, ou realmente bastante longe dele, um cocheiro tem problemas com seu cavalo teimoso; apesar de sua premência, o cavalo resolve empacar, o que faz que o cocheiro – Giuseppe? Carlo? Ettore? – perca a paciência e comece a chicoteá-lo. Nietzsche avança até a multidão e põe um fim ao brutal espetáculo do cocheiro que está espumando de raiva. O forte e bigodudo Nietzsche pula na carroça e abraça o pescoço do cavalo soluçando. Seu vizinho o leva para casa onde ele fica deitado por dois dias, imóvel e silencioso em um divã até que finalmente murmura suas últimas palavras: “Mutter, ich bin dumm.” ( Mãe, eu sou estúpido.) Ele vive ainda por 10 anos meigo e demente, sob os cuidados de sua irmã. Do cavalo nada sabemos…”

O Cavalo de Turim, A torinói ló, filme de 2011 por Béla Tarr e Ágnes Hranitzky

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