Título I: O homem sob o Ser; Introspecção e imensidão na obra de Caspar David Friedrich

omonge
“— Uma praia árida e estéril em frente, depois o mar em movimento. O Monge está profundamente na praia. Gaivotas voam ao redor dele gritando, como se quisessem avisa-lo. Suas pegadas são profundas na praia deserta; mas um vento suave sopra sobre ele e sua trilha desaparece. Pessoa tola! Mesmo que você pretendesse tentar explorar o inexplorado a partir da manhã até afundar a meia-noite, não desvendaria a escuridão do futuro.” (Comentário do autor C.D. Friedrich)

 

Der Mönch am Meer ou O Monge à Beira-Mar nos mantém náufragos num radical vazio de desesperança a que estão submetidas, segundo a perspectiva daquele que observa de fora para dentro, todas as existências, sejam elas providas ou não de alguma inteligência. A solidão do monge transfere a todo o instante da situação uma aura de mistério e enfado que parece perdurar dentro de qualquer sentido que o homem encontre para a sua natureza. A própria paisagem sugere: um dia nublado, não se sabe se é manhã ou fim da tarde, se está chegando uma tempestade ou caindo a noite, se há um perigo iminente que se avizinha até a estreita faixa de areia – única circunstância que separa o monge da possível ameaça do mar – ou a impassibilidade vivencial que já permeia todo o íntimo de seu espectador.

Afinal, o ambiente sempre reflete o que o consciente reverbera.  O monge olha distante, mas não parece enfrentar o céu ameaçador e o mar que toma conta de todo o espaço da cena, se mostra pequeno em ser diante das forças da natureza. Esse andarilho é uma figura que expressa a transcendental limitação humana no embate com as perspectivas de um porvir seguro tão somente quanto ao seu fim, as impossibilidades de um passado que permanece incontestável diante da culpa pelo evitável, e um presente que escorrega manso pela palma da mão sem que se note o porquê veio e quando realmente vai.

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