Primeiro Ato: A Ressurreição dos Mortos. Uma crítica à negação do homem à Vida.

Esta é uma teoria que se encaixa perfeitamente em muitos fatos atuais que tem por base, obviamente, a revolução tecnológica que viemos sofrendo já há algum tempo. Embora a história da Internet comunitária seja recente, os avanços conseguidos através da evolução dos computadores e consequentemente de softwares nos carrega em um presente que alcança um futuro “à cavalo de eletricidade”, ou melhor dizendo, à capacidade de transporte de informação dos microchips.

O que seria absurdamente pensado até pouco tempo antes dos anos 2000 como fantasiosa ficção científica, tem se tornado a realidade de muitos lugares do nosso mundo, e brevemente, essa tecnologia se tornará global e uma parte significativa do cotidiano humano, pois estará de forma simbiótica inserida nele. Mas oops! Isso já não está acontecendo? Celulares com uma conexão online se tornaram respiradores artificiais, já não é impossível colocar nos esquemas probabilísticos o caos que se instalariam no mundo se grandes empresas virtuais como o Facebook ou mesmo o WhatsApp, antes apenas aplicativos de entretenimento, agora, veículos do mercado de trabalho, caíssem de uma hora para outra!

Estamos tão reféns da Internet como nascemos reféns da água.

Não percebemos, mas somos já um grande banco de dados, onde é possível encontrar todo tipo de informação a nosso respeito, desde questões muito íntimas, até aquilo que ficou apenas em seus pensamentos, mas que você procurou na Internet somente por curiosidade. Todos esses movimentos que nos soam inofensivos, em verdade, estão construindo um modelo virtual da nossa personalidade, e para ser mais ousada, quiçá da nossa própria estrutura física. E como não cogitar isso? É uma forma, também, de proteger a história do homem, assim como hoje somos fascinados pelas descobertas que são feitas dos nossos antepassados, é de se esperar que queiramos preservar a nossa espécie, ao menos a memória dela, e não duvide de que existem pessoas com essas ambições, eu mesma sou uma delas.

Isso não é apocalíptico como o título do artigo sugere, uma vez que a tecnologia não é um monstro de cabeças incontáveis que trabalha para aprisionar o homem, eu acredito realmente que isso é um milagre explicável! E todo milagre é sempre uma carga positiva. Não é ambição do homem desde tempos imemoriais, a eternidade? Então por que seria o avanço da tecnologia uma maldição?

Estamos vendo a coisa acontecer, mas poucos de nós percebe como ela está exatamente acontecendo, isso é claro, porque o ser humano tem o incrível relapso mental de se impressionar primeiro e só depois investigar a respeito, mas acho que estou sendo irônica a respeito de ir pesquisar sobre, geralmente se fica apenas no deslumbre mesmo!

Aplicativos como o Reface e serviços de tecnologia como a Deep Nostalgia – criada pela plataforma de genealogia online MyHeritage – se tornaram muito populares entre os internautas, pelo mesmo motivo de sempre, o motim do deslumbre líquido, como classificaria Bauman. É uma novidade. Uma novidade assustadora! Essa novidade assustadora promovida pelo avanço dos softwares de inteligência artificial, devolve uma certa vivacidade aos defuntos, nada por isso, quando provocam um efeito de tridimensionalização da imagem.

É possível dá movimento ao rosto de pessoas em fotografias, o que causa uma ilusão medonha de que há uma verdadeira interação ocorrendo ali. Os mortos ganham vida, você olha para eles e eles parecem seguramente te devolver o olhar, ignorando completamente que um olhar não é simplesmente um conjunto de instruções algébricas replicadas e aplicadas, veja bem, replicadas, a absolutamente toda pessoa que seja possuidora de dois globos oculares que funcionem. Um olhar é muito mais que uma réplica de outros olhares, mas o poder do aplicativo é tão grande sobre as emoções das pessoas que elas são capazes de jurar que os trejeitos da pessoa na fotografia artificialmente manipulada condizem com o que ela era na vida real, “sim, de fato, eu estou olhando para a minha mãe e ela me olha!”, muitos comentários nesse sentido podem ser encontrados.

Eu realmente não sei se as pessoas procuram isso porque uma morte nunca pode ser superada ou porque a curiosidade delas é que não pode ser vencida. Não digo que isso é maligno ou benigno, mesmo porque esse tipo de julgamento não tem vez numa análise mais filosófica e social da questão, mas digo certeiramente, que há vícios anteriores e muito enraizados na história pessoal da sociedade que sempre a levam numa espécie de sedução a se manter cativa em novos vícios, e a impede de analisar sua própria situação como agente apático e simpático dentro e fora dela.

Não que o consumo de um produto seja malefício, mas o teor consumista que se dá à tudo até e principalmente ao desnecessário, é sim, uma doença social e um vazio filosófico que torna o homem um animal encurralado nas necessidades que não lhe pertencem, mas que muito facilmente o iludem a acreditar que as necessitam.

A maldição é o próprio homem que desinteressado por compreender o mundo – a esfinge que engole os estrangeiros – recria monstros no seu universo particular.

Há outros artífices alimentados por esse desconhecimento. Robôs têm desfilado por redes sociais como se fossem humanos, aliás, eles são tão humanos quanto qualquer um dos perfis que exista nessas redes, ou os humanos são tão robóticos quanto qualquer robô que tenha uma identidade social virtual, isso porque a alma dessas redes é o consumo, seja da imagem de uma pessoa, seja das ideias de uma pessoa, seja da própria personalidade dela. E por que um desses robôs não venderia algo assim também?

Basta olhar para a personagem Lu, da rede de lojas Magazine Luiza, é equivocado agora chamá-la apenas de personagem, uma vez que ela é tratada explicitamente como uma “mulher virtual”. O que era apenas um robô de assistência totalmente desprovido de um contato direto e sensível com humanos, de um momento a outro apresenta personalidade, aparência completa e até uma influência real no conteúdo que o público espera. Sim! Ela é uma loja virtualizada, embora tenha a aparência de uma mulher e até aja como suas colegas influenciadoras de moda e arte, e comportamento social, ela ainda é um disfarce muito bonito e acolhedor para o que todo esse mundo de corporações sejam físicas ou não, é, uma ilusão que trabalha perfeitamente os vazios filosóficos da mente humana.

Simulação é o que a personagem, aliás, a mulher virtual Miquela (@lilmiquela) apresenta no Instagram. Ela é um tipo de influenciadora digital como a Lu, só que vende outro produto, a vida de uma modelo, sonho de muitas garotas, que adora curtir com os amigos e está sempre a passeio conhecendo novos lugares enquanto apresenta as marcas das roupas que usa. Novamente, isso não é negativo de forma alguma, a tecnologia é um milagre explicável para ser utilizado, testado e aproveitado ao máximo, mas não quando esses testes se tornam unicamente inconscientes, a ponto de alguém não poder mais distinguir o si de si mesmo.

A responsabilidade é total do consumidor e não da empresa porque a empresa tem o direito de utilizar manobras para criar propagandas que atraiam para o seu produto. A consciência tem que vir do consumidor, mas se ele não tem isso, seu defeito mental acaba por modificador o mundo tornando-o cada vez mais feroz nas suas ambições inalcançáveis e cruel no seu trato com o próprio ser humano. Se não houver uma demanda selvagem por um produto, o produto não se tornará uma zona de guerra, uma competição assassina da particularidade dos eus.

Este assunto não fica por aqui, há ainda vertentes tão ameaçadoras à mente do homem quanto qualquer robô virtual fazendo trend de dancinhas enquanto divulga o modelo novo de roupas que está disponível nas suas lojas, que é o que ela realmente é, uma loja e não uma mulher!

Nada contra a Lu, eu realmente gosto dela, mas gostar dela me preocupa.

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1 comentário em “Primeiro Ato: A Ressurreição dos Mortos. Uma crítica à negação do homem à Vida.”

  1. O conceito mais atualmente difundido sobre programação , relativamente novo, é a programação chama Orientação aos Objetos, que consiste em 4 pilares, sendo o primeiro deles, chamado de pilar da Abstração. Em suma, consiste em trazer um objeto do mundo real para o mundo virtual, observando sua identidade (o que é, dentro do que precisamos que seja) , atributos(características desse objeto) e métodos( o que esse objeto faz), esse primeiro pilar, faz-nos imaginar, por exemplo, como trazer para o virtual, uma entidade qualquer do mundo real, como por exemplo, uma pessoa, ou um tipo de pessoa, ou uma ferramenta , como um canivete suíço.
    Essas abstrações, tem vários níveis a depender dos atributos citados ao objeto e dos métodos que queremos executar, ações da entidade no mundo virtual. A Lu, da magalu, tem cor, tem forma, tem aparência e etc, esses são os atributos… ela dança e é feliz, esses são os métodos. Essas coisas refletem nas pessoas, pois são partes delas mesmas, que tendo elas ou não, foram virtualizadas e colocadas ali , relacionadas a algo que não são elas de verdade e nem poderiam refleti-las, como nesse caso, uma marca de venda de produtos. Mas cria-se personalidade relacionadas aos produtos e portanto aquela nossa busca por descobrirmos quem somos , a corrida por se tornar, por vestir-se de alguma coisa que seja nossa verdadeira concha nautilos, é desviada por relações inconscientes de necessitar de algo como estar ”feliz” dançando, evitar o desprazer, buscar o gozo… além da neuropsicologia das cores(frequencia das cores e tbm na musica, interessante pensar na musica das esferas ) impregada em todo Marketing, ou mesmo do uso de arquetipos tal como fazem ao relacionar icones e figuras ideias, ou ideias comuns no homem, como a morte e os ritos de passagem que vemos enraizados , pegam isso e amarranham na coisa que eles vendem , ou o mais óbvio simbolismo , como o caso do logo da amazon , que tem um sorriso, uma flecha de a até z… podemos ver a busca ansiada por tantas coisas, que julgamos não ter em nós mesmos, mas que a propaganda nos faz ver nos produtos que vendem. É uma guerra psicologica em forma de propaganda, seja la qual for o produto …

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