Através das lentes – As camadas ilusórias do Mundo

Não existem distorções da realidade, mas a realidade é a distorção em si; todas elas.

 

Registro das minhas percepções existenciais ao utilizar óculos de grau a primeira vez em 13/09/2021:

Pensaste que o pior era sentir dor nos olhos, o pior é que te vais acostumar a enxergar assim… nem queiras saber em quais outras tantas mentiras estas acostumado e se por acaso elas rachassem como as lentes que as sustentam. Estes olhos e estes dedos e este corpo não foram feitos para esta Tecnologia, senão eles não estragariam ao utilizar-se dela.

Se as lentes de grau mentem tanto sobre a realidade, imagine o que os seus olhos não inventaram enquanto eles ainda funcionavam…

Existem duas verdades visíveis agora, o guarda-chuva embaçado e aquele em alta resolução. O que diz a verdade? Algum deles diz?

Na parábola do primeiro despertar do Neo no filme Matrix, não é possível compreender perfeitamente a agonia que o personagem enfrenta ao acordar; a nós nos parece muito distante, por mais que cogitemos nisso alguma verdade. Essa claustrofobia, esse enclausuramento é da mesma natureza daquele que enfrentei ao enxergar através das lentes dos óculos. Certamente não é de mesmo nível, mas me ascendeu a perceber o quanto seria terrivelmente doloroso se afastar das coisas tal como as conhecemos para enxergar-las de outra forma, isso quando o cérebro se nega a desprezar o que conheceu e passa a fazer comparações, quando não é ainda mais grave, o mundo da alma apegada às suas memórias. Estamos falando de percepções profundas, toda e qualquer ruptura será sempre aflituosa, por mais que se estique em processos prolongados de adaptação. Há uma crise no ser e nas personalidades que montou, um desmoronamento e um desequilíbrio total do que estava estabelecido e ao mesmo tempo uma tentativa as vezes suicida de retornar ao conhecido: a negação de um bem e a projeção de um mal como argumento para o retornar-a-si, o esquecer, o despertar, pois se crer estar a dormir um grande pesadelo. O homem que tenta suportar age assim, pois esse é também um mecanismo de proteção. Este é o desperto, pois não está ciente da gravidade aquele que não se desespera, a princípio.

Não posso ainda crer que nem sempre há gravidade nesse tipo de situação, pois chegar à um lugar estrangeiro e não estranhar é sinal de que aquele lugar é conhecido do visitante, e há muito tempo lá atrás ele já passou por essa transição.

Como a simples consequência de precisar usar óculos pode nos ensinar muito sobre o quanto somos suscetíveis ao ambiente ao nosso redor e do quanto participamos dele ou simplesmente somos jogados para lá e para cá. Alguns evolucionistas já questionaram o motivo de nossos olhos se desgastarem, sem muitas conclusões objetivas, deu-se à essa questão a resposta óbvia que se dá ao processo de tudo no mundo, o envelhecimento e morte das células. Mas e quanto ao compasso estrutural da visão versus a era das telas digitais? Não é só isso, a coluna também sofre danos devido a constante posição de reclinar-se, e os dedos que não são suficientemente eficazes para a tecnologia touch screen. De tão acostumados que estamos a nos adaptar mesmo que dolorosamente aos ambientes que nos são apresentados, não nos damos conta que não passamos de adaptados, muito precariamente adaptados, logo não são para nós, mas estamos inseridos neles por algum propósito, bom… a fim, provavelmente que nos refinemos e isso crie outros que partirão dessa nossa ascendência: os que foram destinados a todas essas coisas, e para as quais não se modelarão porque elas já vieram ao mundo modeladas para eles. A esse gênero eu diferenciei de qualquer um que seja Homo.

Senti-me verdadeiramente dentro de uma Matrix quando meu cérebro me negava a mim mesma que aquele visual com maior resolução através de lentes alheias era outra coisa e não o que os meus olhos me ofereceram a vida toda. Sim, porque os meus olhos fazem parte do meu corpo, aquilo, no entanto, é um acessório necessário, tão necessário que um dia me pertencerá como os meus nervos me pertencem. Mas, então, eu deveria perguntar-me, será que eu esqueci que alguma vez enxerguei claramente? Deveria ser saboroso relembrar, mas não parece tão simples como numa narrativa corrida de filme.

Era realmente como se eu assistisse ao mundo e não como se o vivesse, tudo se tornou irreal a partir, literalmente, daquele ponto de vista. E a ilusão quando se torna visível é dolorida, em qualquer aspecto da vida humana, em seus conceitos morais, amorais e metafísicos, em suas percepções psicológicas e materialistas, em seus modelos de ética e justiça, em suas organizações sociais e filosóficas, para onde quer que o homem olhe e onde quer que esteja a única coisa que sempre existirá para ele é o que ele quer que exista para si mesmo, qualquer falta de controle sobre isso o despencará eternamente de um abismo do qual deverá sempre subir para cair novamente. Por um feliz infortúnio podemos esquecer, esquecer que um dia enxergamos embaçado ou que enxergamos claramente só para voltar a entender que temos a capacidade, o dom de nos especializar e refinar a alguma coisa dentro de nós a cada aparente nova pedra que jaz entre o topo da montanha e seu pé.

O esquecimento é o freio da dor. Posso compreender, em parte, agora, que essa pequena angustia em mim será incontavelmente maior em algo saindo totalmente da Ilusão. Penso que seria igual a um estado de morrer sem poder deixar de sentir a morte. Não parece concebível que alguém suporte, não sem esses incontáveis freios.

Para cada ato da vida de alguém, a metáfora das lentes dos óculos servirá, como para a alma a parábola dos consecutivos despertares.

 

 

 

 

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