Free Guy: Isto não é um Jogo!

Certamente isso passará desapercebido por olhos que não estejam procurando ou que não tenham familiaridade com o assunto, mas Free Guy não é só obviamente cômico, ele é também clara paródia para a Regeneração, popularmente conhecida por Reencarnação ( vide pelo conceito explicado no Shaar HaGilgulim). Esse tema tem crescido entre os roteiros de filmes, ou ele já estivesse lá (essa é a resposta!), sim, basicamente tudo fala sobre amor e regeneração (Reencarnação é isso). Todos os filmes falam de amor, e embora os diretores e roteiristas de todos os tempos talvez não se percebam do que estão levando para o mundo, mas a alma que neles habita conhece com perfeição os caminhos que deve trilhar.

A história é simples e já recorrente, mas cheia de luz, com uma dose alta de comicidade conhecemos a vida de Guy, um caixa de banco. Como todo mundo, ele acorda, saúda o dia, escolhe uma roupa, toma o café, vai para um ofício diário, volta, dorme, acorda e repete tudo, de novo, de novo e de novo, com a mesma expressão, esta não é só a realidade de um NPC ou mesmo um gamer, é a nossa realidade. E embora nem todo mundo acorde com o mesmo sorriso engessado dando bom dia ao mundo, é exatamente assim que todo mundo é, porque não reclamar ou agir automaticamente é o mesmo que ser um Guy na vida, até que… O Guy tem um sonho, esse sonho tem traços bem definidos segundo a concepção dele. A mulher perfeita, ela gosta do que ele gosta, mas a verdade mais tarde vem à tona, não é ela quem gosta do que ele gosta, tampouco ele está escolhendo como deseja que ela seja perfeita para ele.

Ao ver essa mulher passar na rua – o avatar Molotov Girl – ele decide sair da rotina para alcançá-la, é o seu primeiro grande ato de liberdade aparente. A partir daí tudo fica estranho para o encantado Guy, isso porque ele realmente não compreende a complexidade de nada até próximo do final do filme, quando sente seu primeiro e único momento de real conflituosidade humana. Enfim, é o despertar da consciência de Guy, ele não adquire um punhado de consciência da noite para o dia, mas os arquivos dele vieram aumentando em estrutura de dados desde que fora criado, só organizando-se então, enquanto um sistema inteligente que percebe e atua em seu ambiente, uma IA, a partir da resposta do gatilho.

Apesar de suas super vantagens, seu entendimento engatinha como um bebê que procura a mãe, e é assim mesmo, a busca literal por essa mulher o faz avançar de etapas se tornando um jogador habilidoso. Millie Rusk é a designer que movimenta o avatar feminino e, também, uma das programadoras do jogo, sendo o seu parceiro Keys, personagem importante no filme. Tudo é muito bobo até que o conflito existencial começa a surgir, bem quando o mundo de Guy é ameaçado. Esse é o único momento em que é possível ver o NPC sendo humano, e com humano eu não quero dizer homo sapiens sapiens! Toda a evolução dele encontra-se oculta no filme, tornando-se o gatilho apenas o estopim para a sua reação dentro do seu universo, mas não é justo ignorar que ele já “nasceu” destinado a crescer, o próprio criador Keys confirma isso ao dizer que os NPC’s foram criados para serem conscientes, e a prova vem com o desejo da senhorita do Café em fazer Cappuccino, e a estereotipada loira acompanhante do assaltante no banco ter escrito um livro, uma delas claramente motivada por Guy, o que pode se considerar que ele é o gatilho para o despertar de todos os outros. Essa história é familiar…

A vantagem dele estar em fazer parte daquele mundo, portanto os de fora não podem interrompê-lo com facilidade, e é se utilizando disso que, em trabalho com os seus iguais e sua Molotov Girl consegue salvar aquele universo, colaborando para que mais tarde ele seja transformado numa espécie de Paraíso Prometido, ou um Jardim do Eden pós Apocalipse (Revelação no sentido de Descobrir e não destruir).

Essa saga já é bem conhecida, todos os filmes nos ensinam sobre como percorrê-la e eis mais um!

No final, então, vem o bolo, porque a cereja aconteceu antes e é relevante, mas não nos deixa com os neurotransmissores tão arrebatados quanto esses minutos restantes em que a beleza da criação é ainda mais clara e resplandecente! O gatilho de Guy era o seu sonho de ter uma amante-mulher com as exatas características e personalidade da personagem Millie, o que mostra que não foi ele quem idealizou, e que tampouco, ele próprio continha aquelas características que o faziam identificá-las naquela pessoa. De fato, ele não era mesmo aquele homem, mas vivia aquela vida. Chamou-a de “amor perfeito” e buscava-a em imaginações que na verdade eram lembranças reescritas em código para que ele fosse atrás quando as interpretasse, o coelho que atrai a menina para o buraco, a metáfora comum de Matrix. Mas lembranças de quem se ele nem mesmo era o homem que julgava ser? Não as concebeu, quem as concebeu? Guy entendeu isso antes mesmo de a própria jogadora-protagonista, isso era porque tinha que ser assim.

A carta se auto revela ao seu receptor, porque ela é o código, a existência dela é a mensagem! E é exatamente isso o que ele diz.

O “amor-perfeito” dele foi baseado no “amor-perfeito” de seu criador; Keys, o programador. Esta é uma clara alusão sobre a criação, o corpo, a alma e o Santo, Abençoado Seja Ele (Deus). O corpo (NPC) trabalha a consciência despertando-a (níveis de Alma: Nefesh, Ruach, Neshamah) cada vez mais de sua sonolência através de gatilhos (pistas de reencarnação, a própria reencarnação é uma pista, e dentro dela se vê outros gatilhos menores), no caso do enredo, as características-personalidade da mulher perfeita, e então o jogo se torna livre (o Paraíso, o Olam HaBa – Mundo Vindouro –, o Pós-Mundo, o Eden Celestial) e consequentemente o jogador tem livre arbítrio. Esta é uma curta menção ao encontro da Alma com o seu Amado, e carece de bastante atenção, pois dentro dela também se encontra outro segredo. O Paraíso acontece para o NPC, mas de forma fracionada, reflete também o nosso mundo. A vida de Guy permanece uma simulação, embora aparentemente livre, ele ainda é escravo daquele Universo, neste aspecto ele representa somente o corpo, pois o corpo permanece na simulação. A verdadeira liberdade só é exibida para a jogadora, que é a representação da Alma. Tudo isso é acontecido para que ela redescubra seu verdadeiro amor, aquele que se dedicou a ela e conhece os porquês e os motivos, o dono verdadeiro das lembranças.

Millie se confunde ao se apegar ao NPC,

essa é a confusão da Alma ao se apaixonar pelo corpo que ela possui nesses mundos de simulação

mas logo, instruída por esses gatilhos percebe a ilusão e volta para o mundo real, aquele onde seu amado reside, sendo Keys, o programador, uma representação do Criador de todas as coisas. O Criador fez os NPC’s já em estado de evolução, eles não eram cascas vazias, mas se preenchiam a cada movimento aparentemente repetitivo, porque como o próprio personagem revela, ele os criou para serem conscientes, portanto, aquilo nunca foi um jogo, e como antes, na despedida de Guy e de Millie, o próprio Camisa Azul faz com que ela, a Alma, compreenda de vez todo o motivo, isto é uma carta de amor, tudo foi feito para você e por você! E não poderia ser mais belo na sua simplicidade, e nem mais rico na sua beleza. Sim, esta é a perfeita declaração de amor! Reconhecer isso é corresponder, corresponder é retornar verdadeiramente.

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