Excertos Filosóficos Matrix Resurrections – A Busca pela “eterna” Primeira Vez

Você, talvez, já tenha ouvido aquele conselho “não coloque a sua música favorita como toque despertador porque você vai passar a odiá-la”. Muitas pessoas têm criticado a desenvoltura do ator Keanu Reeves no filme Matrix 2021, dizem ter confundido dois personagens do ator, o Neo e o John Wick. De fato, os dois estão muito misturados em Resurrections; o Neo aparece mais velho e externa um cansaço muito contagioso. Isso serve tanto para a trama que agora é muito mais psicológica do que foi antes, quanto para a realidade por trás das câmeras. O personagem John Wick possui uma carga pesada e séria, o mundo onde ele sobrevive é muito real, distante da fantasia do universo do Neo. Deve ser esse fantasioso e distante conceito de Matrix que faz com que as pessoas não possam aceitar um Neo-Wick, onde a realidade pesa.

Pode ser que o Keanu não tenha conseguido se desfazer da aura do John e por isso o Neo é tão aquele, mas seja como for isso é muito útil porque ele espelha a sociedade exatamente como ela se encontra, exausta de si mesma! E se tornará mais exausta ainda a ponto de ser uma imagem caquética de suas próprias idealizações.

A primeira (pseudo) sugestão no enredo é de que Matrix é um jogo, é assim que as coisas têm começado, para o entretenimento e logo evoluem para trabalho, por isso a conexão com o conselho lá em cima. Foi com esse método que Matrix entrou na cabeça das pessoas, uma ideia em forma de entretenimento foi mais fácil de alcançá-las, mas agora a verdadeira pílula vermelha é oferecida e elas negam simplesmente porque vivem em busca de serem chocadas constantemente com algo que pensam que não conhecem enquanto amontoam sob seus tapetes os complexos familiares que precisam ser resolvidos (essas são as verdadeiras questões!). Não à toa desta vez o Arquiteto se traduz como o Analista.

A Matrix não é só exterior, ela é ainda mais interior e enraizada.

Como um homem comum, Neo conhece uma mulher comum Tiffany (Trinity), alcançável para qualquer indivíduo por isso mesmo é que estes esnobam o que podem, para dar a desculpa do que não podem, porque é mais fácil não poder. Enfim…

O primeiro filme possui um aspecto de jogo eletrônico em contraposição ao quarto que elabora um sistema sócio-psicológico muito mais embutido de “cotidianismos” e realismo, por assim dizer; isto se assemelha em altos graus ao que foi todo o primeiro movimento da Internet (enquanto rede global), e o surgimento dos programas de interação social, como o MSN Messenger, o Skype, e então os blogs, e então as redes temáticas como o Orkut, Twitter, MySpace, Facebook… Tudo isso é o primeiro doce do dia na boca de uma criança, mas logo se torna uma necessidade de escovar os dentes. É chato quando o WhatsApp se torna uma ferramenta indispensável de trabalho, não pela tecnológica porque ela sempre será a novidade, mas porque inserimos na novidade a exaustão dos nossos tão conhecidos dias. Doutra forma também se usa essa novidade para que o cansaço seja maquiado, e então na busca pelo remédio de transferirmos nossa exaustão para a fantasia da Internet criando avatares que ocupam nossos cargos em salas virtuais, nós acabamos por transformar a nossa música favorita numa sinapse dolorosa, um martelo programado para tilintar sempre na hora indesejada.

E quando passamos a nos curvar a isso nos tornamos abatidos como o Neo-Wick, aí é que ganhamos o título de consumidores, não por aquilo que consumimos – porque de fato não consumimos nada -, mas pelo que somos consumidos, uma vez que fizemos dos vícios uma necessidade, uma outra parte do corpo físico, mental e perigosamente espiritual. O John Wick não saiu da pele do Neo até o último instante do filme e a trama não trouxe nada de novo, como esperado por grande maioria do seu público, a não ser para aqueles que podem ver além do conceito da fantasia e da realidade, porque mesmo Matrix 1 não trouxe um conceito novo, ele apenas soube conversar na linguagem do público atual que como todos os outros, espera sempre retornar de onde saiu para nunca ir a lugar algum. Essas questões são antigas ( e primitivas) no homem, um exemplo é que floresceram mesmo na época da modernidade quando a Filosofia Existencialista “nasceu”.

As linguagens mudam de acordo com o tempo que a sociedade habita, e é prudente saber reconhecer o que é apresentado seja lá qual a forma que tome, sob quais véus se esconde.

Mas sim, a novidade natural está justamente aí, e a tecnologia tem sido um veículo para ela, essa mesma tecnologia que tão cedo deixará de ser a novidade observável, Matrix 4 é tão revolucionário quanto o seu primogênito, não porque já observamos essa filosofia, mas porque ainda não a estudamos como ela precisa ser estudada, não entramos realmente em contato com o útero de toda a compreensão.

As coisas belas e vívidas se ocultam no vagar do Tempo, ele as esconde nas suas barbas quebrantadas para que não as alcancemos, para que nos tornemos exaustos e repetitivos tal como ele é.

Se você não conseguiu vê beleza naquele perverso discurso do Analista para o Mr. Thomas A. Anderson, onde você poderia compreendê-la neste ou em qualquer que seja o mundo?!

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1 comentário em “Excertos Filosóficos Matrix Resurrections – A Busca pela “eterna” Primeira Vez”

  1. Não nos tornamos conscientes de nosso labirinto por que seguimos alguma figura brilhante, não é seguindo uma ovelha branca, que o impuro será purificado. Ainda somente o impuro precisará dela, pois busca o que lhe falta ! Tomar consciência de nossos labirintos, de nossos enganar-nos , por isso quem sabe diz que o maior inimigo que você terá é você mesmo, pois vencendo a si mesmo, vence o mundo inteiro !
    Quando você escreveu sobre o despertador, lembrei do filme Laranja Mecânica, que o Alex é colocado num novo tratamento para condenados, fazem ele relacionar cenas de violência com uma droga que gera a sensação de quase morte. Assim ele não podia fazer uso de violência alguma, inclusive impossibilitado de fazer sexo por isso.
    Até ae tudo bem, “ele mereceu”. Contudo, depois por acaso, ele vai parar na casa de alguém próximo a uma das vítimas dele, e essa pessoa vira amiga dele e descobre algo que ele gosta muito, sabendo da situação dele, faz ele relacionar esse prazer aos vídeos anteriores de violência. Uma vingança !
    Primeiro você sonha em ser médico, salvar vidas, depois você é pago a trabalhar , trabalhar, até que a morte se torne apenas mais um momento, tão cotidiano como qualquer outro.
    Eis que a criança sonhou em ser mamãe e papai, de médico, e brincou disso e como era divertido, ela brinca e fantasia, quanta perversidade , ela tem sem nunca ter sido !
    Mais um dia perde suas asas e cai ! Pois primeiro o homem sonhou e depois fez !
    Eis a vingança, uma busca fadada ao encontro com o chão e uma tentativa vã, em retornar ao começo, onde não havia você, onde havia o todo sem noção de eu, quando você não sentia falta de nada, tudo estava dentro. E depois onde havia dissolução com o que lhe faltava, o primeiro êxtase ! ! A Dissolução !
    Procuramos eternamente esse primeiro gozo, essa primeira vez. A novidade, que a cada vez se torna frustrante, pois nunca mais é a primeira e também nunca será, pois é mais labirinto ! e você nunca enfrenta sua escuridão , apenas procura outra distração e alguma razão nela.
    Esse mesmo começo que tivemos antes de nos tornarmos nós mesmo, nossa existência que temos que nos libertar, para não sermos manipulados por ela, achando que é destino !
    Não tome as pílulas azuis, suas atribuições equivocadas, suas palavras de anestesia, os elogios, ou as figuras que substituem a luta e a dor de reconhecer a Verdade. Pois esquecer-se de si mesmo é dissolução, mas primeiro você precisa seguir o fio de Ariadne, pois não há esquecimento sem verdadeira lembrança.
    A sociedade está fadada ao fracasso, visto que sua maioria está veementemente infeliz. As pessoas procuram saber quem são, nas sociedades primitivas, nascia-se homem , já se sabia o que tal iria fazer, nascia naquela família, recebia o sobrenome que era a profissão, sabia o qe iria fazer, qual seu papel no mundo. Por isso, não havia tanta angústia como há hoje, são muitas opções, não é restrição. E as pessoas são viciadas na forma, viciadas no que esta fora delas.

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