Qual a verdadeira face do seu Desejo?

A morte existe para dar oportunidade às outras formas da Manifestação? Não sei se essa seria uma resposta conclusiva para o todo da realidade, mas ainda assim é uma resposta satisfatória. Cada resposta que satisfaz uma dúvida é um núcleo das várias camadas da Vontade, esses pequenos núcleos são conhecidos como “desejos”. Podemos alcançar respostas satisfatórias quanto aos nossos desejos, mas será que podemos quanto a nossa Vontade? (Supondo-se que ela seja mesmo Particular em algum momento) Ela estará sempre escondida e um passo além daquilo que acreditamos que queremos. Há uma grande diferença entre o que realmente pretendemos e o envoltório, a casca da semente, onde aquele desejo se desdobra.

É certo de que todos nós desejamos nos colocar numa posição superior a que ocupamos até então, não importa agora se essa posição é material ou mental ou espiritual, apenas se concentre no anseio comunitário de procurar sempre um passo à mais, mesmo para baixo quanto mais profundo, mais elevado no que se deseja alcançar. A questão é sempre progredir mesmo na regressão nunca há um impulso para o menos, mas sempre para o mais. Talvez este seja um daqueles pontos fixos na Lei do Universo, de modo que, embora essa consecutiva de crescimentos ainda pareça clara, ela não é, e certamente alguém pode e deve dizer o contrário de tudo isso o que acabo de afirmar. Este é o envoltório, a casca da semente, porque é um desejo-núcleo, a resposta para mim. O que estar por trás de toda essa coisa, no entanto, não me é possível alcançar, e só tenho ciência de sua existência mesmo como um sopro perturbador na minha tentativa de entender, justamente porque há essa dúvida persistente que nunca se responde sobre “o por que eu quero isso”?

Coisas resolvidas não fazem barulho!

Deixe-me dá um exemplo, breve, mas complexo. O sentimento do Amor. Por que fulano ama ciclano? E então ele dará todas as particularidades naquela pessoa em questão que o fazem se interessar e mantê-lo por perto. Mas isso ainda não resolve, porque se for perguntado qual a razão para essas particularidades e não outras serem as que o prendem ao sujeito, isso demanda que a pessoa se aprofunde ainda mais, e com isso virão outras questões e tantas mais outras que em algum ponto se tornará impossível explicar. É onde pretendemos chegar no esconderijo da Vontade, onde ela não pode ser fatiada, explicada, entendida, traduzida em palavras, ações, medos e energia, onde ela sequer pode ser sentida, bem ali onde não houver qualquer explicação para o sentimento e o ato Amor, ali é onde a Vontade-Amor existe na sua plenitude, totalmente desprovida de cascas, tão desnuda que não podemos olhar para ela e enxergá-la porque ela deixaria de ser. E veja que escrevi Vontade-Amor, isso abre brechas para que eu diga também Vontade-Medo, Vontade-Liberdade, essa situação me conduz à um labirinto infinito, e já estarei à fatiar a vontade como as camadas de uma cebola, uma distorção, uma vez que a Vontade é tudo e abarca tudo e nada dela está separado ou distinguível, ao menos essa é a minha resposta satisfatória, a que eu ainda perscruto na turbulência da mente.

Posso dar o meu próprio exemplo, para que pareça mais íntimo e não tão distante. Eu anseio encontrar o meu mestre, mas antes mesmo de encontrá-lo já arranjei várias respostas satisfatórias para colocar como adesivo no buraco da minha incompreensível Vontade, entre elas são que todos aqueles que em algum momento se passaram por meus alunos, são em verdade esse mestre que eu não consigo enxergar no seu todo, ou ainda, que todos aqueles que me repassaram algum conhecimento, esses sim são o meu mestre, ou ainda o mestre está dentro de mim e preciso fazê-lo vir para fora, para que eu o vejo pelo todo. Mas por que embora todas essas respostas que me dei sejam satisfatórias elas não são suficientes para calar esse desejo que vai além do desejo-envoltório que é a busca pelo mestre? Todos nós buscamos essa voz de comando, não à toa toda a sociedade é baseada em lideranças, sejam elas de pessoas físicas, sejam elas de crenças, sejam elas de gostos, de ética, ou seja, como for buscamos sempre algo que nos diga o que fazer ou se o que fazemos é o correto ou o incorreto. Esse desejo pode estar muito camuflado, como por exemplo, um jovem que se rebela contra os líderes de sua instituição escolar e então passa a afrontar tudo inclusive a própria entidade física, a escola, ele não está indo contra todas as autoridades, embora creia nisso como “o cerne da rebelião”, ele seguramente está procurando um tipo de liderança que concorde com o que ele acredita, até onde eu sei, e isso é limitado, não existe neste mundo nenhuma ideia de algo que possa existir ou ser criado sem uma liderança, porque o próprio criador do caos e da lei que diz “vai e faz o que tu queres” está impedido de sair da posição de criador e por isso de liderança, todos que seguirem essa ordem (embora disfarçada de liberdade e desordem) o citarão e colocaram sobre as suas imagens a imagem dele, e vice-versa.

Mas a busca pela voz de comando é somente um desejo-núcleo porque eu posso responder que desejo identificar o meu mestre, ainda que ele seja interior, porque eu tenho necessidade de ter um destino em que eu nasço para algo e algo nasce por mim, a carruagem onde esse desejo se equilibra se chama “estudar, conhecer a Existência”, isso porque anseio ter nascido para algo para poder estudar sobre esse algo, e então me questionarei, por que eu quero um destino? Posso dizer que esse destino não me deixaria vagando sem saber o que fazer, e então vou me respondendo a mim mesma e dando voltas e chegando nas mesmas respostas e conclusões, mas sem nunca matar o verme principal que é a inquietação de jamais estar satisfeitas com o tanto de mestres que eu mesma já criei para mim! Da mesma forma como o rebelde que se juntou à rebelião inevitavelmente vai rachar o grupo e estabelecer um outro braço de entendimento para fora daquele núcleo de crenças, entortando e ampliando assim os motivos da rebelião, embora suas próprias interpretações ainda bebam da fonte primária de onde ele primeiro se identificou e se juntou.

Você deve ter notado que eu disse que preciso encontrar o todo, porque as metades não me concluem. É exatamente assim que o conceito da Vontade tenta se desnudar para mim, sem permitir que a desnudemos de verdade. Você pode saber porquê precisa comer, isso porque sabe o que acontece se você não comer, e a razão para tudo isso certamente é a morte, mas quais as razões da Morte? E então a resposta está no primeiro paragrafo desse texto, no entanto, é apenas uma resposta que dá prazer até certo ponto, pois você pode se questionar qual o motivo de todas as formas não conseguirem estar ao mesmo tempo manifestadas anulando assim a morte? Ou será que isso já acontece e não podemos ver? É aqui onde a Vontade se esconde? Por que eu deveria acreditar que a manifestação simultânea de todas as formas-pensamentos é sinônimo de eternidade e que eternidade é antônimo de morte?

Veja que são labirintos, escadas que levam para cima e para baixo infinitamente. Não traduzi-las, essa parece uma possível solução, mas isso não significa não fazer nada, ser um frívolo parasita, supérfluo, pelo contrário, não interpretar aquilo no que nos deparamos é o exercício mais difícil até então, porque estamos de alguma forma limitados à considerar absolutamente tudo, até o voo de uma borboleta abriu caminho para uma teoria tão complexa quanto o que a ciência da física e da biologia explicam sobre como acontece esse (aparentemente) simplório e belo bater de asas aos nossos olhos.

De fato eu estou buscando uma evolução em muitos níveis, mas esse é um desejo-núcleo que está envolto numa casca muito dura que é interpretada pela eterna busca por um mestre, ou a busca pelo pai, ou a busca pela Verdade, ou a busca pela Razão. Essas cascas são as coisas que podemos ver superficialmente, e quando nos voltamos para dentro de nós, então aquele jovem rebelde que faz bagunça na escola não está realmente agredindo os professores, mas outra coisa, outra coisa que mesmo sem perceber ele vai persegui-la enquanto existir, passando por essas cascas que satisfatoriamente darão à ele um propósito, um destino, um prazer momentâneo, que em muitos casos dura uma vida toda (embora uma única vida não seja realmente o ciclo inteiro de uma existência).

O caos é uma ordem.

Pensemos.

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